sábado, 25 de abril de 2015

Consumindo-me


Re-começo. Difícil dizer se ainda consigo ou "sei" escrever, se existe uma fórmula para se recomeçar algo, ou mesmo se isso é possível. Muita coisa mudou desde que, de repente, "abandonei" a escrita - se é que foi um abandono. Se é que foi da escrita. 

Talvez tenha abandonado a mim mesma um pouco. Ou tentado, apenas. Talvez quisesse/precisasse me ver abandonada por mim, pra variar. Mas hoje vejo que somente eu posso ser presente a mim mesma, no fim das contas. Exigir presença dos outros seria objetificá-los, utilizando-os a mercê das minhas necessidades, dos meus desejos - em suma, consumindo-os. Prefiro ser com Outros do que ser com Isso. Prefiro ser com-um, tendo em comum a consciência de que a angústia da existência deita sob todos os travesseiros, que não é um privilégio meu ou de alguns. 

Existimos, todos, neste mundo. E pouco identificamos semelhanças com outros, pela ideia ingênua de uma individualidade, única, própria, inigualável. Quando, de fato, só o que nos distingue é a pele que habitamos. Porque somos humanos, cheios de incertezas, cheios de tormentas sobre o existir e o cessar da nossa existência. E, nesse sentido, não me cabe consumir ninguém, que não eu mesma. 

Objetifico-me para este consumo, por vezes, sim. Quero atender às minhas expectativas exigindo eficiência. Mas deixo claro que meu consumo de mim, bem como eu, tem inúmeras possibilidades de ser. Eis o meu re-começo.

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